Os tchecos e os livros (e livrarias em Praga)

4 set

Os tchecos lêem bastante.

É possível notar isso no transporte público: além dos costumeiros fones de ouvido e jornaizinhos gratuitos como o Metro, sempre há algumas pessoas com seus livros, às vezes encapados com jornal. Um tempo atrás, numa época em que eu pegava sempre a mesma linha no mesmo horário e por isso via alguns rostos recorrentes, eu acompanhei por umas semanas o progresso de um fulano lendo Eragon. Notei no primeiro dia, porque ele estava abrindo as primeiras páginas. Na semana seguinte, encontrei-o de novo, e depois, e depois de novo, e o marca-páginas ia progredindo. Até que um dia ele estava lendo outro livro.

Não sei se vem de berço, se é recente, se o governo tem o dedo nisso ou não. É só uma observação, porque depois de um tempo fica meio evidente. Boa parte dos outdoors e cartazes publicitários, principalmente no metrô, são relacionados a livros. De acordo com a minha pesquisa de campo (metodologicamente impecável, devo dizer), nas estações de metrô em Praga há 3 vezes mais pôsteres de lançamentos de livros do que de lançamentos de filmes. Interessante, não?

Outro indício é a presença forte das Levné Knihy, uma rede de ‘livrarias genéricas’ espalhadas por Praga. São lojas sem muita firula, que vendem livros baratos – coisa de 100 Kč (~R$10,00) ou menos. Com as promoções (bem freqüentes, aliás), não é difícil achar livros por menos de 30 Kč. E são livros de qualidade! Não necessariamente edições vagabundas ou com papel barato, tem tudo que é tipo, inclusive de capa dura, com fotografias, e por aí vai.

Uma de muitas.

Além das Levné Knihy, há inúmeros sebos (antikvariat) e outras livrarias espalhadas pela cidade. O único problema – para nós, não para eles – é que têm quase tudo em tcheco. Pode parecer óbvio, né? Mas não. É que talvez tenha ficado um pouco ambíguo quando eu disse que é tudo em tcheco. Deixa eu esclarecer:

Os tchecos traduzem tudo.  Qualquer tipo de livro, coisas obscuras ou populares, velhas ou novas, têm suas edições traduzidas aqui. (Tchecos te diriam que não e reclamariam de barriga cheia. Sigamos em frente.)

E as traduções saem rápido! Se você considerar que há no mundo pouco mais de 10 milhões de pessoas que falam tcheco como língua materna (e tá, mais uns tantos eslovacos que podem ler sem problemas), é bem impressionante que eles traduzam tanto.

Dá até uma certa inveja, quando eu lembro da quantidade de livros que no Brasil seria preciso encomendar originais ou edições portuguesas porque não existe uma edição brasileira. Os livros do Terry Pratchett, por exemplo, saem aqui em tcheco praticamente ao mesmo tempo em que o original é publicado. Aliás, o Terry Pratchett é muito bem cotado aqui. É até engraçado. Certas livrarias – sebos inclusive – têm prateleiras inteiras para o Terry Pratchett, e uma biblioteca municipal tem um “Club do Terry Pratchett”, com reuniões regulares e tal.

Mas e pra quem não lê tcheco? Sem problemas! Em cada livraria há dezenas de livros do Terry Pratchett em inglês. Ah, você quis dizer em geral…?

As livrarias maiores e mais centrais, como as da rede NeoLuxor (especialmente a Palac Knihy) e basicamente todas na Vaclávské Námesti, tem sempre uma seção em inglês, e algumas delas também em outras línguas. A Oxford Books, escondida numa galeria também na Vaclávské Nám., tem uma seçãozinha em português no meio de um mar de livros em alemão. Ainda no centro mas um tanto discreta também fica a Globe, que é especializada em publicações em inglês e tem também um café no fundo com eventos várias vezes por semana, etc. Mas a favorita da casa – e estudo de caso – é a Shakespeare & Sons (ou Shakespeare a Synove).

Fica na Malá Strana, numa portinha com uma estante na frente vendendo uns livrecos velhos por dez coroas, eventualmente um cachorro deitado na entrada. Mas passe por cima do cachorro (ninguém vai tirá-lo de lá) – o tesouro está dentro. Ok, esclarecendo: os preços da Shakes(…) não são melhores do que os da concorrência (tente colocar isso numa propaganda); o ponto é que 90% do acervo de lá é assim de escolha da casa, e não são coisas que se ache por aí. Além disso, o andar de baixo é praticamente um sebo de livros estrangeiros (não só em inglês). A Luxor tem uma coleção decente, e as outras citadas aqui também (ou não teriam sido citadas), mas a grande maioria das livrarias em Praga tem uma estantezinha de Anglictina que vai ser assim os mesmos 10 títulos na cidade inteira.

Achou a portinha? Aqueles arcos no fundo, aliás, já são a ponte do Carlos.

 

Falando em estantezinha, um último comentário: todas (ou quase) livrarias de Praga que têm uma seção em inglês têm também uma seção separada de traduções de autores tchecos e de livros sobre a República Tcheca, Praga, etc. É uma boa oportunidade – onde mais você teria uma seleção assim? Aproveite, dê uma olhada nas capas, pegue um Bohumil Hrabal ou um Karel Čapek, e vá ler por aí.

 

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