Por que você deveria saber mais sobre Karel Čapek

27 jan

Em 1921, estreou a peça R.U.R, escrita pelo tcheco Karel Čapek. É reconhecida como o surgimento da palavra robô (robot) – esse é o primeiro fato difundido sobre o assunto. A peça é uma ficção científica onde uma companhia (Rossum’s Universal Robots) cria os tais robôs para fazer o trabalho dos humanos. A maior parte se passa dentro do escritório da companhia, onde os personagens humanos discutem e descrevem o que acontece no mundo lá fora. Não vou falar muito sobre a trama, para quem quiser lê-la, mas é justo dizer que as coisas, claro, não saem tão bem quanto esperado.

R.U.R. encenada pela Theatre Guild, New York, 1922

 

Tirando isso, não costuma-se falar muito sobre o Čapek. Mas você deveria saber mais sobre ele e para isso cá estamos nós.

O segundo fato mais difundido sobre ele é que a palavra robô em si (que é o principal motivo da maioria das referências à peça), cuja raiz tcheca está relacionada a “trabalho”, foi criada não pelo Karel, mas pelo seu irmão, Josef Čapek. Segundo o próprio Karel, assim se sucedeu: o autor contou brevemente ao irmão, enquanto este pintava, como era a história da peça.

“Então a escreva”, resmungou o irmão, com um pincel na boca, sem olhar.

“É que eu não sei como chamar os trabalhadores artificiais”, disse o Karel, “usaria labores [laboři], mas isso me parece coisa de artigo.”

E o Josef: “Então os chame de robôs [roboti]“, e continuou pintando.

E foi isso.

Josef Čapek é ainda menos famoso mundo afora, mas era um colaborador freqüente do irmão e foi um artista bem reconhecido. Criticava publicamente os nazistas, que o mandaram para um campo de concentração – o mesmo onde estava a Anne Frank, aliás – onde morreu em 1945.

Josef Čapek, "Sonho de uma multidão de desesperados", 1921

O terceiro fato, bem curioso, aliás, é que os robôs na peça não são autômatos; não são feitos de mecanismos, geringonças metálicas e programadas para dizer does not compute quando alguém fala sobre amor. Eles são ‘construídos’, de certa forma, mas talvez seja melhor dizer ‘sintetizados’: são constituídos de órgãos e tecidos projetados para gerar um ser próximo a um humano, porém mais forte, incansável, etc. Enfim: são criaturas vivas, não objetos-inanimados-só-que-animados.

Karel Čapek não é só uma referência para nerds

Bem, ele é uma senhora referência para nerds, homenageado em Star Trek e Futurama, por exemplo. Mas não se limita a isso, não senhor. Foi uma figura política importante na Tchecoslováquia. Como escritor, deixou uma obra extensa, na qual usa ficção para mostrar sua visão profunda (e freqüentemente acurada) de onde o mundo estava e para onde estava caminhando. Há também não-ficção, como o Talks with T. G. Masaryk (Hovory s T. G. Masarykem), sobre o Tomáš Masaryk, que o conhecia pessoalmente e se tornou o primeiro presidente da Tchecoslováquia. Mas tá, listas você pode achar em outro lugar. Voltemos à experiência própria.

O outro livro dele que eu li é o War with the Newts (em tcheco, Válka s mloky; não há tradução brasileira, mas em Portugal chama-se A Guerra das Salamandras). Na minha opinião, muito melhor que R.U.R. Tudo bem, ler uma peça sempre tem suas desvantagens e isso influencia. Mesmo assim. O War with the Newts é um ótimo livro, com uma narrativa um tanto esquisita – a ‘narração’ é composta de notícias de jornal, diários, entrevistas, artigos científicos, etc. – mas que o Čapek trabalha extremamente bem. É bem satírico e também bem dramático. Especialmente sabendo que o livro foi escrito pouco antes da Segunda Guerra.

Ok, preciso avisar que vão aparecer alguns spoilers, daqui para frente. Avisados.

Na história, umas salamandras maiores e mais espertas são descobertas na Indonésia. Não demora muito para que sejam ‘domesticadas’, treinadas, reproduzidas e usadas basicamente como trabalho escravo. Começam a surgir diferentes fornecedores de salamandras, gabando-se que as suas são melhores, etc. O uso das salamandras gera conflitos internacionais cada vez mais sérios, e é aqui que as cutucadas do Čapek são especialmente eficientes.

Tudo o que acontece é ao mesmo tempo muito absurdo e muito real. O colonialismo é meio que ridicularizado. As relações diplomáticas entre os países são caricaturais mas críveis – e um tanto proféticas: um grupo de países poderosos ‘dá’ a China para outro grupo, como uma oferta de paz. Muito similar ao que aconteceu com a própria Tchecoslováquia alguns anos depois da publicação do livro. Há também o cientista alemão que diz ter concluído que as salamandras nórdicas são uma raça superior. E há a conquista e destruição do mundo por um poder militar cujo crescimento as outras nações não conseguem impedir. Medonho.

E acabaram-se os spoilers.

Por enquanto é isso que eu sei dizer sobre sua obra.

Lido o War with the Newts, minha próxima investida vai ser o Contos Apócrifos (Kniha apokryfů), em que ele usa personagens históricos e lendários e reconta suas histórias ou os coloca em novas. Não saberia dizer mais porque não quero pesquisar muito antes de o ler. Mas tendo visto o que o Karel Čapek é capaz de fazer, eu tenho certeza que não vai ser uma leitura desperdiçada.

 

Túmulo de Karel Čapek, que vimos no cemitério em Vyšehrád.

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13 Respostas to “Por que você deveria saber mais sobre Karel Čapek”

  1. Stela 27 de janeiro de 2011 às 2:36 pm #

    Muito interessante. Vou procurar a Guerra das Salamandras. E uma dúvida: vc tem lido o Čapek no original?

    • jvbernatel 27 de janeiro de 2011 às 2:40 pm #

      A Sarah já leu uma história dele no original! Pois é. Que coisa! Me sinto até emocionado de poder dizer isso. Mas não, esses eu li em inglês, e o próximo provavelmente vai ser também. Um dia, porém…

      • rbp 27 de janeiro de 2011 às 5:53 pm #

        Eu também ia perguntar isso 🙂

        Minha segunda pergunta é: tem alguma tradução reconhecidamente melhor? Na Amazon tem versões traduzidas por R. Weatherall e Ewald Osers.

  2. jvbernatel 27 de janeiro de 2011 às 6:09 pm #

    Você tá falando do War with the Newts, certo?
    A tradução que eu li foi a do Ewald Osers. É a mais comum de se achar aqui em Praga, talvez isso queira dizer alguma coisa. E gostei, é uma leitura boa, e acho que isso diz algo sobre o bom trabalho do tradutor. Recomendo.

    A edição que eu li do R.U.R. foi a da Penguin Classics, não é tão agradável mas acho que são bem diferentes mesmo no original (até porque são 15 anos entre uma obra e a outra). Indiferento.

    • jvbernatel 27 de janeiro de 2011 às 6:34 pm #

      Ahá! Há uma tradução de R.U.R. disponível online: http://ebooks.adelaide.edu.au/c/capek/karel/rur/

      • rbp 27 de janeiro de 2011 às 6:36 pm #

        Ah, legal, tks! De qualquer forma, como só vou ler mesmo lá pra Abril, vai pra wishlist da Amazon, e depois eu leio em cópia física 🙂

      • sarahkcp 27 de janeiro de 2011 às 10:06 pm #

        Quem sabe até lá você não passa por aqui e pega da nossa estante, hm?

  3. rbp 27 de janeiro de 2011 às 10:17 pm #

    Mas isso seria ROUBO!!

    • sarahkcp 28 de janeiro de 2011 às 10:29 am #

      Nao quando é aprovado pelos donos.

    • Daniduc 28 de janeiro de 2011 às 10:35 am #

      Não, seria ROBOT! Super adequado.

      Hã, o Drácula também é contado através de notícias, diários, cartas, etc. Acho que estava em voga no século XIX, começo do XX (assim, aparentemente, como a expressão “estar em voga”). Sei que romance contado através de cartas se chama “epistemológico”, mas não sei se essa definição engloba essa forma de narrar também.

      • jvbernatel 28 de janeiro de 2011 às 10:48 am #

        Pois é! Eu ia até comentar sobre o Drácula no post, mas achei dispensável. E dispensei.

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