Por que diabos “Praga”!?

20 jan

De vez em quando aparece nas nossas estatísticas do blog alguém que chegou até aqui procurando pela origem do nome de Praga. Eu também tinha curiosidade a esse respeito. Aliás, ainda tenho. Aqui vai o que eu descobri até agora – se algum dia eu achar algo mais concreto, coloco também.

Para começar pelo fim, “Praga”. A palavra em português dá margem pra muitas gracinhas, mas não está relacionada a pragas, no sentido de pestes ou gente chata. É só uma adaptação do nome vindo de outra língua.

Eu achava que seria uma aproximação fonética de Prague, tanto em francês quanto inglês (que é de onde tiramos muitas das nossas palavras estrangeiras). E de onde vem “Prague”? Do alemão Prag. E esse, de onde vem? Do tcheco, oras.

Mas na verdade a palavra em português pode ter vindo diretamente do tcheco (talvez passando por espanhol, já que é igual nas duas línguas). Afinal, esses povos estão lidando uns com os outros há muito tempo. Por exemplo, no século XVI, enquanto o Felipe II governava o reino de Portugal (entre outros), seu tio Ferdinando governava o reino da Boêmia (entre outros). Então apesar de eu gostar do caminho tcheco – alemão – francês/inglês – português, é mais provável que Praga tenha chegado até nós direto do original.

O original

Em tcheco, a cidade se chama Praha. Pronuncia-se “prárra”. Agora, antes de tentar dizer o significado de Praha, deixa eu contar um causo.

Certa vez eu fui com um tcheco a uma cidade, perto da fronteira com a Alemanha, chamada Ustí nad Labem. Eu perguntei o que significava isso, e ele me respondeu:

Ústí sobre o (rio) Labe.”

“E o que significa Ústí?”

“É o nome da cidade.”

Oqueeei. Então o nome da cidade significa… o nome da cidade! Ústí é Ústí, Praha é Praha, Brno é Brno. E na verdade, é isso mesmo. Segundo vários tchecos me disseram, boa parte dos nomes de lugares por aqui não significam nada além do nome em si. Pode ser que o sentido original tenha se perdido, ou que o “sentido original” seja, de fato, o lugar. Coisas de idiomas.

(É um tanto estranho pensar nisso de um ponto de vista brasileiro, já que nossas cidades têm nomes enigmáticos como Porto Seguro, Fortaleza, Boa Vista, Rio de Janeiro… Teófilo Otoni…)

No caso de Praha, portanto, sinto muito: a palavra não tem nenhum significado além do nome da cidade.

E nos tempos de outrora?

Não hoje, pelo menos. Na página de Praga na Wikipédia, você pode achar uma seção de etimologia. Mas lá mesmo há umas três ou quatro hipóteses meio discordantes, para não dizer contraditórias. Uma delas é que vem de uma raiz eslava para “vau” – a relação é que a cidade teria sido fundada próxima a um ponto de travessia do rio Vltava.

Outra conexão é com a palavra tcheca para “limite” (práh). Uma interpretação para essa origem tem a ver com a lenda da fundação da cidade – Libuše, que à época vivia em Vyšehrád, teria tido uma visão e instruído o povo a construir um castelo do outro lado do rio. Eles saberiam o local pois era onde um homem estava construindo a porta de sua casa. Essa versão da história é bem difundida, mas não levada muito a sério por ser baseada numa lenda, e o que freqüentemente acontece nesses casos é que a origem lendária começa a ser contada bem depois que a coisa em si já está bem estabelecida, com a origem real esquecida.

Essa ligação com “limite” também pode ter a ver com possíveis acidentes geológicos no rio; outra possível relação é com o solo onde o Castelo foi construído; mais uma com o fato de ser (mais ou menos) o limite entre as terras eslavas e as germânicas; e por fim, poderia ser uma espécie de exaltação: a cidade que de quase não parece deste mundo.

Claro, eu não sou nenhum lingüista (se fosse usaria trema? Hm…) mas o que me parece é que todas essas versões são associações entre palavras ou raízes antigas e características locais, mas nenhuma delas é muito conclusiva como razão do nome Praha.

(Até porque, além de tudo isso, ainda é possível que a raiz da palavra seja celta, não eslava. Afinal, essa região era habitada por celtas desde uns 500 anos a.C. – inclusive o nome Boêmia tem origem celta, sabia?)

Mas nem tudo faz pouco sentido

Os tchecos também têm sua cota de nomes com significado. Um exemplo curioso é o da cidadezinha de Tábor. No século XV, parte dos Hussitas (rebeldes seguidores de Jan Hus) se estabeleceu em uma colina no sul da Boêmia, e a batizou com o nome de um monte onde teria acontecido a transfiguração de Jesus. Por isso, a palavra tábor em tcheco hoje significa “acampamento”. Já vi em mais de uma ocasião a relação se inverter, e se atribuir o nome da cidade ao fato de que se originou como um acampamento de exilados. Tá vendo como essas coisas são complicadas?

Placa em Tábor, mostrando o centro histórico. Que um dia foi um acampamento de rebeldes.

Quando estivemos em Beroun, nem desconfiamos que a cidade foi nomeada a partir de Verona, na Itália – que em tcheco, aliás, também é Beroun. Não é tão difícil ver a relação, não é? (Uma mais difícil é a vila de Benátky: é como se chama Veneza, em tcheco.)

p.s.: voltando para o português, só para esclarecer um ponto: desde o século XVI, eram usadas as frases em latim Praga Caput Regni (Praga, cabeça do reino) e Praga Mater Urbium (Praga, mãe de cidades). Mas só porque é latim, não quer dizer que a palavra em português venha daí. Se bobear, é até o contrário: o fulano precisava criar um lema mas não sabia como era “Praha” em latim, então usou português – é tudo latino, mesmo…

 

Hoje não é mais "Caput Regni", é "Caput Rei publicae". (WikiCommons)

Hoje não é mais "Caput Regni", é "Caput Rei publicae". (WikiCommons)

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7 Respostas to “Por que diabos “Praga”!?”

  1. Stela 20 de janeiro de 2011 às 2:53 pm #

    Excelente! E podemos até especular, a se acreditar na hipótese “limites”, que Bauru, conhecida mundialmente como a “cidade sem limites” seria uma espécie de Praga nacional (nos dois sentidos, se é que me entendem…). Brú nad Praha, ou coisa semelhante.

  2. Stela 21 de janeiro de 2011 às 8:07 pm #

    Eu fico com uru (ave parente da galinha). Com o que fizeram ali com os Kaigang, dificilmente eles viriam com essa história de grande lago, queda d’água etc. É mais crível que tenham chamado de galinha mesmo, na falta de uma palavra para fdp na lingua nativa.

    • sarahkcp 22 de janeiro de 2011 às 12:25 pm #

      muahahaha

    • jvbernatel 30 de maio de 2011 às 5:12 pm #

      É, eu vi essa página (entre muitas outras), é legal essa noção das lendas que dá, mesmo que curtinhas. Como eu disse no post, essa versão associada à profecia da Libuše é bem difundida, mas longe de ser a única – ou de ser aceita como verdade.

Trackbacks/Pingbacks

  1. Tábor e sua história « Minha Vida em Praga - 6 de fevereiro de 2011

    […] Tábor é uma cidadezinha no sul da República Tcheca com uma história curiosa. No começo do século XV, Jan Hus foi queimado vivo pela Igreja e seus seguidores se organizaram, se rebelaram, lutaram contra a Igreja e todo esse período cheio de turbulência social e política é chamado de “Guerras Hussitas” (eu já falei um pouco mais sobre isso antes, bem como sobre a palavra tábor, quando falei da origem do nome de Praga). […]

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