Um Pouco de Política na República

21 nov

Só por curiosidade, resolvi falar um pouco da política na República Tcheca. Só aí é que me dei conta de que, bem, eu não sei muito sobre ela.

Não saber ler tcheco (ainda!) torna difícil acompanhar os acontecimentos no país, mas não é impossível. Algum conhecimento já permite ler pelo menos as manchetes (o mais irritante é quando entendemos quase toda a frase, exceto uma palavra-chave). E claro, existem publicações online sobre Praga em inglês, como o Prague Post ou o Prague Monitor.

Mas mesmo por outras fontes, é meio inevitável não ficar sabendo de algumas coisas que acontecem por esses lados. Até porque 2010 foi ano de eleições, então recebemos spam eleitoral freqüentemente e metade dos cartazes na cidade eram de candidatos (alguns eu só descobri depois, entretanto. Até pouco tempo atrás, eu achava que “Top 09” era alguma marca que tinha um sério problema em escolher garotos-propaganda).

Então, eis aqui a Política na República Tcheca pelo ponto de vista de alguém que não entende muito do assunto. Tenho basicamente só as impressões acumuladas pela vida cotidiana, mas já é mais do que muita gente.

Primeiro, a situação geral

A República Tcheca é uma democracia parlamentarista, com um presidente (chefe de Estado) e um primeiro-ministro (chefe do governo). O parlamento é dividido em Câmara e Senado.

Imigrante legal no pátio do Valdštejnský palác, sede do Senado. Ao fundo, à direita, pode-se ver o Castelo de Praga, sede da presidência e residência oficial do presidente.

 

Existem aqui vários partidos, mas os dois principais são um partido de centro-direita (o ODS) e um partido de de centro-esquerda (o ČSSD). Existem também os partidos radicais de direita e esquerda, e um partido verde. Familiar?

Não há muito mistério aí. A direita radical, claro, bota a culpa dos problemas nacionais nos esquerdistas, nos imigrantes, e nos outros países (inclusive, em fevereiro um partido praticamente neo-nazista foi finalmente declarado ilegal). A esquerda radical bota a culpa na direita, no capitalismo, e nos outros países.

Os não-radicais têm planos mais viáveis e moderados, mas ainda alinhados a um ou outro lado. Os verdes dizem que gente, não é bem por aí – mas ninguém dá muito ouvidos a eles.

Em geral, o partido mais poderoso aqui é o ODS, de direita moderada. Isso porque (e é difícil não dar razão aos tchecos nesse sentido) os de esquerda se associam aos ideais comunistas, e ainda tem muuuuita gente aqui que lembra, e muito bem, de como o comunismo era – o aplicado na prática, não o ideal (eu já contei como vi gente exigindo o fim do Partido Comunista).

Mas o ČSSD também é bem forte. Talvez porque haja várias vilazinhas e cidades construídas no interior pelos soviéticos para abrigar fábricas e produção que, com o fim do comunismo, foram para outros lugares mais viáveis ou simplesmente acabaram; então existe aqui sua parcela de gente que sente falta dos bons velhos tempos de opressão ideológica mas com emprego garantido.

Bem, eu suponho que se você quer uma análise política confiável, estaria procurando em outras fontes. Então chapinhemos de volta para a parte rasa da nossa piscina pública de conhecimento.

Agora, os causos

Talvez uma breve amostra de acontecimentos recentes ajude a ilustrar o tipo de coisa com que nós nos deparamos. Aqui vai:

A Vereadora

Ivona Fišerová, vereadora na cidade de Oloumoc, foi criticada por colegas por ir a um encontro do partido com um vestido colado e curto demais. Então, ela declarou que já que não gostaram da roupa dela, da próxima vez não vai usar nada.

Disse também que está disposta a posar para a Playboy e doar o lucro para caridade (“Se posso ajudar, é minha obrigação”, disse ela) e que seus críticos são atrasados e não entendem o que é que os jovens querem. (Políticos pelados, aparentemente.)

O Ministro dos Transportes

O Ministro dos Tranportes, Vit Bárta, teve a carteira de motorista suspensa por 6 meses e vai ter que pagar multa de 5000 Kč por ter dirigido seu carro com uma placa falsa. Pois é. Ele disse que perdeu a placa do carro numa estrada de terra, então fez uma cópia e colocou no lugar.

Pelo menos, ele teve o bom senso de declarar que não vai recorrer da decisão, porque nesse caso ela seria julgada por ele e seus subordinados.

O Ministro da Saúde

Esse causo já é antigo, mas é um clássico.

Em 2006, o então Ministro da Saúde, David Rath, deu declarações à imprensa deixando implícito que o vice-primeiro ministro, Miroslav Macek, tinha casado por dinheiro. Mais tarde, em uma convenção de dentistas, Macek resolveu que antes de seu discurso sobre o que quer que se discorre em uma convenção de dentistas, tinha um assunto inacabado para tratar. O resto é história.

Eis a história:

(Não tem legendas mas convenhamos que dá para deduzir o teor geral do debate.)

Enfim: a política na República Tcheca não é assim tão diferente da política no Brasil.


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3 Respostas to “Um Pouco de Política na República”

  1. rbp 22 de novembro de 2010 às 10:23 pm #

    “Imigrante legal”, tá… Se fosse um pé, era dispensado do exército!

    • Stela 23 de novembro de 2010 às 8:59 pm #

      Voltei da Argentina e eis que me deparo com uma nova linha de crônicas de Praga, agora no campo da política. Deliciosa! E acabo de descobrir que há outra nova, sobre história, que vou ler ainda. Enquanto isso, estou tentando (sem sucesso) achar meu velho blog de um único post, pra dar uma revigorada nele com as aventuras portenhas. Pra falar a verdade nem lembro o endereço. Ô inveja de vcs!

      • jvbernatel 24 de novembro de 2010 às 2:30 pm #

        Procure o seu blog no Google! Pode ser bem eficaz. Por exemplo, ontem alguém chegou aqui procurando por “ruas de pequena cidade na inglaterra a noite no inveno no século xix”…

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