Revolução

17 nov

Eu não sou muito bom com História. Fazer o quê. Sempre confundo a ordem dos eventos, os nomes, as datas… e tirando isso, o que mais tem?

Tá, tem mais. Contextualmente. Conceitualmente. Etc.

Mas enfim: o fato é que desde o ano passado, quando meu interesse pela história da República Tcheca brotou praticamente do nada, eu sempre confundo a Primavera de Praga e a Revolução de Veludo. O que mais ajudou a separar uma da outra e fixá-las na cabeça foi que, no ano passado, eu participei da Revolução de Veludo! Tudo bem, foi só uma comemoração, não uma revolução… mas isso fica para daqui a pouco.

(Aproveito a deixa para dizer que resolvemos mudar um pouco o visual aqui do blógue: agora, os posts aparecerão só parcialmente na página principal. Para ler tudo, clique no “Continue reading” que estará logo antes das etiquetas.)

Antes que eu divague de novo, uma breve terminologia:

“Revolução de Veludo” em tcheco é sametová revoluce ( lê-se quase igual: [samêtová revolutse]) e significa literalmente isso. Aos olhos de um recém-iniciado no belo idioma hussita, é até fácil confundir isso com smetanová revoluce – que significaria, literalmente, revolução cremosa – e foi isso que eu fiz. Eu achava estranho mesmo essa associação de requeijão com veludo, mas vá lá, deve ser pela suavidade, leveza, alguma coisa metafórica…

Mas o que foi, afinal?

Claro que você, leitor informado que é (ou será em instantes), sabe o que foi a Revolução de Veludo: uma mudança de regime  – o fim do comunismo – provocada por manifestações pacíficas, protestos, greves, etc. Um movimento relativamente espontâneo. E relativamente curto.

Isso foi, em um parágrafo, uma das mais emblemáticas, se não maiores, revoluções da história da humanidade.

Imagem da Revolução de Veludo no site da Embaixada Tcheca. Não sei a fonte original.

Para tentar esclarecer como os eventos se encadearam, eis um relato sucinto dos eventos dos últimos 70 anos que influenciaram este post.

1939

Em novembro de 1939, os estudantes de Praga se manifestaram contra os nazistas (que haviam tomado a cidade no ano anterior). Os nazistas retaliaram e um estudante foi morto, no dia 15. O seu funeral virou um protesto muito mais forte, e a retaliação nazista foi também muito mais forte. No dia 17/11, eles tomaram  a Universidade de Praga e a fecharam (bem como todas outras universidades tchecas), matando no processo 9 estudantes e enviando mais 1200 para campos de concentração.

Essa data se tornou o Dia Internacional dos Estudantes, por causa dos eventos na (então) Tchecoslováquia.

1989

Em 17/11/1989, a comemoração dos 50 anos do Dia Internacional dos Estudantes seria uma grande passeata estudantil pacífica em Praga. Os manifestantes saíram da Karlova Univerzita (Universidade Carolina, em português), passaram pelo túmulo do estudante assassinado em 1939, e seguiram andando pela beira do Vltava até a frente do Národní Divadlo, viraram à direita na Národní Třída… e lá estava a polícia.

As duas pontas da avenida foram fechadas, outras saídas foram interditadas e com todo aquele povo cercado como gado, a polícia desceu o cacete.

Essa foi a motivação que faltava para mais protestos e greves e pressão popular. Resumindo: no fim de dezembro o governo comunista já tinha caído.

Manifestantes na Václavské Náměstí. (Fonte: Wikicommons)

2009

Em comemoração aos 20 anos da Revolução, houve uma grande passeata seguindo o trajeto feito pela original. Eu fui ver qual era a comoção e tirei as fotos a seguir.

Todo esse povo na Národní Třída (ao fundo, o Teatro) ainda estava esperando a passeata chegar.

Peguei o bonde andando na beira do rio. Cartazes, uns bonecos bizarros, tambores, flashes e muita gente. (Não sei quanta porque eu também não sou muito bom com estimar quantidades a olho.) Como na original, os participantes aproveitaram a oportunidade para manifestar o que achavam que precisava ser dito.

Foi curioso, para mim, ver quais eram as reclamações dos tchecos –  na época eu não sabia bulhufas da situação do país, menos ainda da opinião do povo a respeito. Uma coisa que me marcou nesse 17/11 foi ver vários cartazes pedindo (ou exigindo, porque cartaz em manifestação não costuma ‘pedir’) a ilegalidade do Partido Comunista. É fácil entender: o Partido Comunista esteve no poder menos de uma geração atrás – quem sofreu com ele (e muitos sofreram, e muito) deve ficar mesmo bem incomodado de vê-lo tentando voltar.

"KSČ" (no cartaz, em cima) é o Partido Comunista.

Outra coisa curiosa foram as chaves. Pelo que eu entendi, em 1989 o método de fazer barulho dos manifestantes era chacoalhar os chaveiros. Era uma forma de fazer barulho que não precisava levar nenhuma corneta ou tambor ou megafone – coisas que ou simplesmente não poderiam ter ou que seriam muito chamativas fora da passeata. Mas eu posso estar errado quanto ao motivo da chaveata.

 

Povo na rua com suas bandeirinhas da República Tcheca e da Eslováquia (afinal a história é dos dois países).

Quando a Národní Třída já estava tomada – tinha um palco fechando a avenida, mais ou menos onde 20 anos atrás era a polícia – houve um daqueles momentos arrepiantes em que uma multidão de repente fica em silêncio. Parece que enquanto o barulho e o movimento antes te carregava, esse silêncio pesa. No palco, começaram a cantar o hino nacional (que era também a primeira parte do hino da Tchecoslováquia) e a multidão acompanhou. Infelizmente, eu não sabia o que era nem o que dizia, mas eu diria que foi bonito.

(E é bonito, mesmo. Curiosamente, o hino, chamado Kde domov můj?, foi originalmente escrito como trilha para uma comédia.)

As aparências enganam, aparentemente.

Já ouvi mais de uma vez – de tchecos, inclusive – que o governo comunista já estava moribundo em 1989 e teria, se não orquestrado, facilitado a Revolução de Veludo. Meio que secretamente incentivado os ânimos e não reagido tão brutalmente quanto estava acostumado a fazer. Isso seria um jeito de acabar logo com o que não poderia durar muito mais, e de quebra com uma revolução pacífica, evitando assim mais sangue derramando e – principalmente – que o sangue derramado fosse do Partido.

Mas isso são ainda conjecturas e hipóteses destas que garantem que os historiadores (sem falar nos neuróticos anônimos da internet) terão ainda muito o que escrever para confundir as cabeças de gente como o que vos escreve.

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7 Respostas to “Revolução”

  1. rbp 17 de novembro de 2010 às 6:10 pm #

    Aguardo um post sobre a Primavera de Praga!

    • jvbernatel 17 de novembro de 2010 às 9:47 pm #

      Tem gente que nunca está satisfeita…

      • rbp 17 de novembro de 2010 às 9:49 pm #

        Você está falando dos estudantes tchecos?

    • jvbernatel 17 de novembro de 2010 às 10:00 pm #

      Aguardo reconhecimento por essa deixa ótima que eu te deixei.

  2. jvbernatel 17 de novembro de 2010 às 9:59 pm #

    Mas ok, um dia eu faço! Quem sabe em agosto do ano que vem…

    • rbp 17 de novembro de 2010 às 10:01 pm #

      Reconheço que reconheço a deixa que você deixou.

Trackbacks/Pingbacks

  1. A Política na República « Minha Vida em Praga - 21 de novembro de 2010

    […] Em geral, o partido mais poderoso aqui é o ODS, de direita moderada. Isso porque (e é difícil não dar razão aos tchecos nesse sentido) os de esquerda se associam aos ideais comunistas, e ainda tem muuuuita gente aqui que lembra, e muito bem, de como o comunismo era – o aplicado na prática, não o ideal (eu já contei como vi gente exigindo o fim do Partido Comunista). […]

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