Salamanca

14 out

Ok, agora que pus minhas coisas em ordem, já dá para relatar a nossa viagem para Salamanca.

Depois da confusão com as estações de trem em Madrid, conseguimos chegar em Chamartín a tempo de comprar os bilhetes. Decidimos ir de trem para Salamanca porque não há nada como uma viagem de trem para nós. Na Espanha, pelo menos para a região a oeste de Madrid, que foi onde procuramos, o bilhete de trem custa o mesmo (e dependendo do horário é até mais barato) que o bilhete de ônibus. Sem contar que a viagem de trem seria mais rápida por ter menos paradas (cerca de 2h e 1/2). Os trens da renfe, empresa de trens espanhola, são super confortáveis e modernos. Ousaria dizer que são melhores do que os que pegamos da deutsche-bahn.

A paisagem rural espanhola que vi foi exatamente como eu esperava: pedras, arbustos, touros, morros beges, tudo como tinha visto em Terra e Liberdade, filme de Ken Loach que retrata a guerra civil espanhola.

paisagem vista de dentro do trem

A estação de trens de Salamanca fica um tanto afastada do centro, então quando chegamos pegamos um taxi para lá. O nosso hostal fica  no centro, entre a universidade e a plaza mayor, numa rua cheia de restaurantes. Os funcionários são muito simpáticos, nos deram um mapa da cidade e nos deram dicas do que ver na cidade, mas que já tinhamos assinalado em nosso guia. O quarto era muito bom, com banheiro e tudo. Aprendemos ali que a diferença entre um hotel e um hostal é que os dois são bem mais confortáveis que um hostel, mas o hostal não serve café da manhã ou qualquer refeição.

Assim que largamos nossa mala no quarto, fomos pra rua caçar o almoço, o que não foi difícil. Depois do almoço, com as energias repostas, fomos passear pela cidade. Demos uma olhada na universidade, passamos pela catedral nova, fomos para a plaza mayor. A plaza mayor é imensa mesmo. Aliás, pelo pouco que eu vi mas já generalizando, toda cidade espanhola tem uma plaza mayor onde soltam os touros. De longe já escutávamos a barulhada que vinha de lá e quando chegamos vimos a origem do barulho: gente aos montes pintada, algumas vestidas de pijama, outras com a roupa de baixo por cima da roupa normal, algumas amarradas aos colegas, cada grupo com seus gritos específicos. Era a calourada, o batizado dos novos universitários em frente aos turistas. Na verdade, foi muito divertido olhar tudo aquilo. Não vi nada desse tipo por aqui em Praga, mas também não fui passear nos campus nessa época. Durante todos os dias de nossa estadia vimos grupos de universitários passeando pra lá e pra cá com os calouros, mostrando a cidade e cobrando prendas. Aliás, em Madrid vimos disso também.

fachada do prédio histórico da Universidade de Salamanca. Reza a lenda que quem achar a rã escondida entre os adornos na fachada terá muita sorte nos estudos.

plaza mayor de Salamanca

Ciudad Rodrigo

No dia seguinte, o Badá atendeu à Conferência e eu fui a Ciudad Rodrigo. Fui não apenas porque o orientador do Badá havia recomendado, mas também porque no livro que estava lendo na época, A Viagem do Elefante, penúltimo livro de José Saramago, esta cidade é um ponto importante da história. O livro é muito bom, para quem ficou curioso. (Na verdade, a história do Saramago passa-se em Castelo Rodrigo, em Portugal, que, na verdade, é muito mais bonita que Ciudad Rodrigo. As duas cidades ficam muito próximas uma da outra, a 68kms de distância. O livro do Saramago continua sendo muito bom.)

detalhe da muralha de Ciudad Rodrigo

Ciudad Rodrigo (ou castelo rodrigo, como os portugueses a chamam) é uma fortaleza a 89 km de Salamanca e a 29km da fronteira com Portugal. A viagem de ida e volta de ônibus me custaram 11,00 euros. Fui de manhã e voltei no meio da tarde, por ser um lugar relativamente pequeno e fácil de olhar. Fiquei um pouco triste quando vi que o castelo da cidade foi transformado em hotel e, portanto, não estava aberto aos turistas. Mas de resto, vi a prefeitura, as antigas casas das famílias poderosas, andei pela muralha e vi a catedral, que é bem bonita. Em muitos dos prédios que ficam perto da muralha, como por exemplo a catedral, haviam marcações nas fachadas, buracos, figuras quebradas. Depois descobri que isto foi resultado dos ataques das tropas napoleônicas buscando conquistar a península ibérica. Parece que Ciudad Rodrigo era um ponto estratégico por estar na estrada entre Portugal e Espanha. O melhor gazpacho que comi na minha vida foi lá, seguido de churrasco. Me deram para acompanhar 1/2 garrafa de vinho.

A cidade foi tomada pelas tropas napoleônicas em 1810, depois de um cerco de 24 dias, quando os franceses explodiram uma parte da muralha. Dois anos depois, os ingleses tomaram a cidade de volta, com a ajuda de soldados portugueses. De Ciudad Rodrigo, os ingleses partiram para Salamanca e depois para Madrid, liberando a Espanha da ocupação francesa.

fachada sul da catedral de Ciudad Rodrigo

O que achei mais interessante na cidade foi uma exposição sobre a guerra napoleônica na cidade. Lá haviam mapas da região, roupas da época, armas, sabres, moedas, e o crème de la crème, a série completa de “Los Desastres de la Guerra” do Goya, 82 gravuras feitas entre 1810 e 1815 que retratam os horrores da guerra napoleônica e depois os horrores da restauração do regime absolutista sob Ferdinando II, além dos abusos cometidos pela igreja católica. Estas gravuras fizeram meu dia.

Monastério de San Estebán

Quando voltei de Ciudad Rodrigo, encontrei com o Badá e fomos passear mais um pouco por Salamanca. Decidimos ir ao monastério de San Estebán, cujo prédio se destaca bem na paisagem salamatina.

Fachada do Monastério de Sán Estebán

Uma coisa que me encantou na Espanha foi que em muitas das igrejas principais da cidade, eles afixam instruções de como ler as fachadas das igrejas. Sabe, aquelas esculturas todas de santos e símbolos que eu sempre vejo mas não entendo nada. O monastério em si é bem bonito e preservado. A igreja é impressionante, mas não tanto quanto a catedral nova.

Em termos de monumentos, no final todos se lembram bastante, então nem vou descrever todos porque senão fica muito repetitivo. Todos são feitos com a mesma pedra, têm fachadas super decoradas e são grandes pra chuchu. Durante o pôr-do-sol, a luz bate de maneira a deixar os prédios todos dourados, parecendo que foram feitos de ouro macio, prestes a derreter.

Em geral, achei os prédios civis e igrejas antigas bastante bem conservados, muito mais limpos do que em Portugal.

Passeio Guiado

A conferência havia organizado um passeio noturno guiado pelo centro histórico de Salamanca. Nos reunimos em frente ao prédio histórico da universidade na hora marcada e, um pouco depois, chegou um grupo de tunas universitarias, rapazes vestidos à moda do século XVIII, com violões, bandolins e tamborins, tocando e cantando. Me deu uma pena imensa de ter esquecido no hotel a câmera point-and-shoot que filma. Além de bonito, foi muito divertido. Achei no Youtube um video no mesmo lugar onde nos reunimos, com a diferença de que nosso show foi noturno:

nosso grupo de tunas

A visita guiada em si foi muito decepcionante. A guia passou por lugares que já havíamos passado e apenas complementou, quando não disse a mesma coisa que o nosso guia. Mais valeu pelas tunas.

Sierra de Francia

Em nossa última noite, a conferência organizou uma viagem para uma cidadezinha perto de Salamanca, chamada La Alberca, que fica em Sierra de Francia, região de cadeias montanhosas pouco povoada. No caminho vimos um monastério no alto de uma das montanhas e ficamos tremendamente decepcionados quando descobrimos que aquele não era o nosso destino. A viagem estava programada para acabar num outro monastério. Passeamos pela cidade com uma guia que nos explicou um pouco sobre a arquitetura e história locais. A cidade em si estava muito acabada, com muitos prédios caindo aos pedaços. Em muitas das casas os portais estavam gravados com “ave maria” ou outras coisas indecifráveis de significado religioso. Estas casas pertenceram a cristãos novos que, na época da inquisição, para afirmar sua real conversão gravaram frases como estas em suas casas.

proteção contra a inquisição

Depois do passeio, fomos levados ao monastério que ficava mais perto do aquele da montanha. Este mais perto foi transformado em hotel/spa e lá jantamos, mas não achei o jantar lá grandes coisas. Para a minha alegria, fizeram uma fila de conga ao som de Conga, da Glória Estefan, como no Futurama. Eu não participei.

Na manhã do dia seguinte nos preparamos para voltar a Madrid ao meio-dia, mas perdemos esse trem. Sorte nossa que isso não faz muita diferença na programação porque mesmo chegando tarde dá pra fazer muita coisa lá.

Mais fotos aqui.

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