Garmisch-Partenkirchen

26 set

A temporada de conferências internacionais do Badá começou (e também já acabou para esse ano). Foram duas semanas em dois países diferentes: Alemanha e depois Espanha.

Na Alemanha, o plano original era passar o fim de semana em Munique, para conhecer, e depois irmos para o sul, para a cidade de Garmish-Partenkirchen (GAPA), onde haveria a 1ª conferência. Mas, como o mundo é mundo, complicações surgiram e tivemos que riscar Munique dos planos. Fica para uma próxima oportunidade.

localização de Garmisch-Partenkirchen

Saímos numa segunda-feira da estação central de Praga. Descobrimos que lá tem uma loja da “deutsche bahn” e ficamos muito felizes ao descobrir que conseguimos comprar aqui na República Tcheca o Bayern-ticket daqui! Aprendemos sobre essa maravilha de bilhete com o Rodrigo e a Aline, que o descobriram ao planejarem a viagem deles para estes nossos cantos. Com o bayern-ticket até 5 pessoas conseguem viajar com o mesmo bilhete quantas vezes quiserem durante um dia inteiro na região da Bavária, custando apenas €28. Ele tem hora para começar e terminar, e não são todos os trens que aceitam o bayern ticket, então você tem que ficar de olho em qual trem quer pegar.

Com todas as trocas de trens que tivemos que fazer, a viagem, saindo de Praga e chegando em GAPA durou cerca de 8 horas. Saímos por volta das 13:00 e chegamos às 20:57. Como o verão já acabou, na hora em que chegamos já estava completamente escuro, então nem deu para ver onde nos metemos. O orientador do Badá foi muito simpático em nos quebrar um galho imenso e nos buscar na estação de trens, me deixar no meu hotel e levar o Badá pra dormir com ele. Tá, eu explico: o povo da Universidade de Coimbra, que trabalha com o laboratório do Badá, alugou uns apartamentos para acomodar quem fosse atender às conferências. Como eu fui de bicona, eu preferi ficar num hotel para evitar complicações.

vista da janela do meu hotel

Garmisch-Partenkirchen, eram duas cidades muito próximas uma da outra que foram unidas em 1936 para sediarem os jogos olípicos de inverno. Não é para menos: cravada nos Alpes, a cidade fica num vale completamente rodeado por montanhas. Aliás, Zugspitze, a montanha mais alta da Alemanha (2962m) olha para GAPA. Do outro lado do Zugspitzeplatt fica a Áustria.

Eu fiquei num hotel bem simples. Na verdade, o hotel era uma simples casa de família que no segundo e terceiro andares dividiu e modificou os quartos, colocando um banheiro em cada um para receber hóspedes. Achei o meu quarto muito engraçadinho, com o banheiro improvisado atrás de uma cortina. Me senti muito à vontade em meu quarto. A senhora que administrava o hotel, limpava os quartos e servia o café da manhã parecia uma múmia de tão velhinha. Era um doce e muito sempre solícita. Não falava nada de inglês, e qualquer coisa que eu a perguntava ela me respondia com um “gut, gut”.

Garmisch-Partenkirchen é bem pequenina mas está sempre cheia pois recebe turistas o ano inteiro. No verão o povo vai para lá para fazer as inúmeras trilhas demarcadas pela região. No inverno o povo vai para esquiar. E turista foi o que vi o tempo todo. Por mais que eu achasse que eu estava enfurnada no meio do nada, isolada da civilização e levemente preocupada por estar sozinha demais, sempre vinha alguém por perto, cruzando e cumprimentando com o típico “Hallo!”.

Terça-feira: Partnachklamm

Como a natureza seria a minha atração principal nesta viagem, tive que optar entre fazer tudo a pé ou alugar uma bicicleta. Como eu estava desprovida de qualquer mapa e tinha chegado de noite, fui seguindo mais ou menos a direção para a estação ferroviária pois me lembrava que lá tinha um mapão da cidade. O problema foi que o meu hotel ficava a uns 5km do centro. No meio do caminho eu vi que seria mais jogo arrumar uma bicicleta mesmo, decidindo “once and for all” o tipo de atividade que predominaria até a quinta-feira, e aluguei uma por €20,00. Ela era novinha e tão bonita!

minha bicicleta. ó, como eu queria trazê-la para Praga...

Mas eu superestimei a minha condição física. O primeiro dia eu gastei me acostumando ao banco da bicicleta e preparando minhas coxas para os próximos dias. Fui ao centro turístico, arrumei um mapa da cidade e comprei um mapa das trilhas de bicicletas. Estava pronta! A primeira atração da região que ataquei foi o Partnachklamm, ou o “desfiladeiro de Partnach”. Para chegar nele, que fica nos fundos de Partenkirchen, tive que passar pela rampa olímpica que construíram para as olímpiadas de inverno de 2011 que será novamente sediada em GAPA.

A rampa olímpica de esqui.

pastos de bifes. Essa foto eu tirei noutro dia, mas é do mesmo lugar.

Aliás, para chegar na rampa descobri um caminho dos fundos da cidade, onde estão estábulos e pastos espalhados por um uma planície bem verde na base das montanhas. Gostei muito de passear por lá e tomei esse caminho todos os dias.

Partnachklamm

Fui até a entrada do Parnachklamm de bicicleta. Na porta tranquei a bicicleta e continuei a pé. A passagem pelo desfiladeiro é bastante segura. Foram cavados uns túneis por dentro das pedras, como se vê na foto acima, o que deixou o passeio um tanto interessante. O dia estava frio e chuvoso, então os túneis ajudavam a proteger da água gelada que caía. Mas ao mesmo tempo eram um tanto desoladores porque eram completamente escuros. Atravessado o desfiladeiro, encontrei-me numa encruzilhada de trilhas, mas não segui por nenhuma porque já eram 17h da tarde e qualquer trilha demorava pelo menos 3 horas para se chegar a algum lugar interessante. Para ir sozinha e voltar no escuro, a prudência falou mais alto e resolvi deixar para explorar estas partes noutro dia, que, na verdade, ficaram para ser exploradas em outra viagem, visto que não voltei mais para aqueles cantos.

Quarta-feira: Eibsee

No dia seguinte, eu decidi passear em Eibsee, um lago bonito pra danar que fica a 35km de Garmisch, bem no sopé do Zugspitze. Acho que sem a bicicleta talvez não arriscaria o passeio, mas mesmo com ela foi uma dureza! A cidade fica num vale, então para qualquer canto que eu decidisse ir, teria que encarar uma subida. E p*** m****, que subidas foram aquelas! Como não andava há muito tempo de bicicleta, boa parte da ida eu tive que empurrar a minha morro acima. Mas não foi só isso, eu tinha que empurrar a bicicleta morro acima e ainda aguentar os comentários do povo que passava ao meu lado, que me via, apontava morro acima e dava uma risadinha. Tudo bem, pois a volta era uma descida e no final eu é que ri.

eu não fui a única a empurrar bicicleta morro acima.

Subindo a montanha, depois de cerca de 1 hora, cheguei num ponto em que podia optar entre continuar a trilha floresta adentro ou ir pela estrada. Estava me sentindo uma aventureira, mas ainda assim um pouco medrosa de andar de bicicleta ao lado dos carros, então optei por ir pela floresta. Eu realmente não sei qual caminho seria pior. A floresta teve o aconchego de ser fresquinha (porque eu já estava suando às bicas), mas as subidas eram um tanto íngremes. A estrada não era tão íngreme, mas aquela subidinha que não acabava te mata do mesmo jeito. E por cima de tudo, ainda perdi minha garrafinha d’água. Depois de outra hora de subida constante, consegui finalmente chegar em Eibsee. Valeu todo o esforço.

uma das primeiras coisas que vi em Eibsee e não comi.

Eu que pensava que quando chegasse ao lago ficaria lá, daria uma olhada e depois voltaria, me enganei. Descobri uma trilha que dá a volta no lago, com um total de 7,7km, e me animei para continuar, parando para comprar umas águas antes. A vista não é apenas maravilhosa, mas a água do lago é cristalina, vindo direto do topo das montanhas que o circundam.

eibsee

a água é azul, azul.

apenas a título de curiosidade, esta montanha aí do lado, meio cortada, é o Zugspitze.

Depois de respirar o ar puro da montanha e almoçar uma comida mais ou menos (é impressionante como os restaurantes que ficam perto dos lugares mais bonitos nunca são muito bons, mas era a única opção), decidi que já estava descansada o suficiente para fazer a viagem de volta. Decidi voltar por um outro caminho que vi no meu mapa, passando no meio de uma floresta e por uma outra cidadezinha chamada Grainau que fica entre Garmisch e Eibsee. O problema foi que quando cheguei na parte da floresta, não gostei de lá, achei vazio demais. Então fui pegando trilhas para chegar o mais rápido possível em Grainau e, de lá, eu voltei pelos pastos mesmo.

Quando cheguei em Garmisch, morta de cansaço com a coxa já dura e quase em cãibra, descansei um pouco para ir me encontrar com o Badá para jantar. O povo de Coimbra havia decidido ir jantar num restaurante lá nos cafundós de Partenkirchen e nos chamaram para ir juntos. Quando chegamos lá, descobri que o povo de Coimbra tinha na cozinha do restaurante um amigo Português que haviam conhecido anos atrás por conta da mesma conferência. Ele preparou para nós uns bifes gigantes, visto que os portugueses também não se animam com a culinária alemã (sem ofensas, R e A). AAAAH, foi tão bom! Aqui em Praga é difícil arrumar carne boa… A conversa também foi muito boa, porque bom, portugueses falando sempre é engraçado e o orientador do Badá é também engraçado.

No final, para a volta, como eu tinha levado a minha bicicleta, o Badá se propôs a levá-la de volta para mim enquanto eu pegava uma carona para o hotel com o povo de Coimbra. Fiquei com medo de ele se perder por lá de noite, então fui junto, eu na bicicleta e ele na garupa. Chegamos rapidinho!

Quinta-feira: Por volta de GAPA

No terceiro dia eu não sabia muito bem o que fazer. As trilhas indicadas no mapa que eu animei dfazer passavam todas por grandes trechos nas estradas e eu não estava com confiança total para encarar uma autobahn (e estava também sem capacete). Antes de me decidir por definitivo o que fazer durante o dia, eu passeei novamente pelos fundos de GAPA, tentei fazer umas trilhas por lá mas achei-as íngremes demais para ir de bicicleta, então acabei por decidir cruzar a cidade e dar a volta numa montanha que tem à frente de Garmisch. Olhando pelo mapa da região, descobri que por lá haviam as ruínas de um castelo que tinha me interessado ver.

manhã nublada

vista do outro lado da cidade. Estas montanhas ao fundo são as mesmas da foto acima.

Novamente, tive que subir um morro fidiquenga, mas a trilha estava fechada para bicicletas, então tive que ir pela rua lateral. Nessa não tinha problema andar, porque quase não passava carro. Obviamente, depois dos 5 primeiros metros em cima da bicicleta, tive que descer para empurrá-la morro acima. Nesse meio tempo, chegou um cara todo aparamentado com trajes de ciclista profissional e enquanto eu empurrava a bicicleta, ele subiu e desceu o mesmo morro 2 vezes. Andei um tanto pela floresta, achei as ruínas, apreciei a vista mas, quando pensava em seguir adiante, o tempo fechou mais e começou a chover. Não apenas começou a chover, como a temperatura caiu um tanto. Esse clima me deixou com uma fome tremenda, então voltei logo para a cidade para me encontrar com o Badá e almoçar.

vista para Partenkirchen. No fundo é possível ver a pista olímpica de esqui.

À tarde, minhas forças para continuar a andar de bicicleta haviam sido gastas. Sentei num dos muitos bancos espalhados pela cidade e li. Depois, fui encontrar com o Badá que conseguiu sair mais cedo um pouco da conferência para ir conhecer os arredores. Devolvemos a minha bicicleta e fomos passear pela cidade.

Sexta-feira: Retorno a Praga

Demos muita sorte com a volta. O orientador do Badá voltaria para Praga na sexta-feira e o carro dele não estava cheio! A viagem duraria cerca de 4 horas e meia, se não fosse um acidente que engarrafou a saída de Munique e que acrescentou cerca de 1:20 ao nosso tempo de viagem.

Bom, este foi o meu relato das coisas que eu fiz. Mas eu posso fazer um resumo da estadia do Badá: terça, quarta e quinta-feira: Kongresshaus. Ele não conseguiu passear muito porque não apenas tinha que assistir às palestras, mas também preparar as coisas que iria apresentar na próxima semana em Salamanca.

Mais fotos aqui.

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9 Respostas to “Garmisch-Partenkirchen”

  1. Aline 26 de setembro de 2010 às 11:15 pm #

    Estava vendo as fotos antes de começar a ler e pensando “que lugar bonito”, aí quando vi no mapa que ficava bem na fronteira com a Áustria, entendi tudo. Aposto que foi terra roubada pela Alemanha 😛

    Pô, Sarah, você fala mal da culinária germânica, mas se recusou a comer o peixinho. Mó cara boa! Nham nham…

    Muito legais o relato e a viagem. E a foto da manhã nublada, com a bicicleta estacionada está muito poética 🙂

    • sarahkcp 27 de setembro de 2010 às 10:20 am #

      É, o peixe estava bonito mesmo, mas eu não animo nem um pouco em comer peixe de rio ou lago. Prefiro ficar com os bifes.

      O lugar é lindo mesmo. Fiquei um tanto curiosa para ver no inverno, mas antes preciso melhorar as minhas aptitudes esquiadoras pra propriamente poder aproveitar.

      Agora que eu consegui colocar as coisas no flickr, você vai ver que a bicicleta apareceu em muitas fotos. Como não tinha o Badá pra fotografar, foi a bicicleta no lugar dele.

  2. Lissa 27 de setembro de 2010 às 12:07 am #

    Que lindo esse lugar! Bem como pensei que o sul da Alemanha fosse =)

    • sarahkcp 27 de setembro de 2010 às 10:22 am #

      Fui lindo mesmo!

  3. Stela 27 de setembro de 2010 às 3:26 pm #

    Detesto ser repetitiva, mas QUE LINDO! E aqueles vestidinhos de Noviça Rebelde na vitrine da loja, dá vontade de sair rodopiando e cantando The Hills are Alive…As fotos estão ótimas, com a bicicleta de personagem, tipo “só falta falar”. Numa foto de um riacho de águas transparentes passando bem atrás de uma fileira de casas, foi chocante: imaginei como seria aqui, com esgoto substituindo a água, restos de sofá jogados no rio, cachorro morto, etc. E pensar isso às vésperas de uma eleição geral, dá muita raiva ver o que fazem esses fidiquenga (para usar a novilíngua da Sarah) com o poder e com os recursos públicos. Voltando aos assuntos de alto astral, que bom que vcs estão aproveitando bem a vida na Europa. Claro que fez falta para a mamãe uma foto do Badá. Desta vez passa. Foi compensado pelo seu texto ótimo, leve, solto, que segura a leitura até o fim e dá vontade de ler mais. Aguardo as aventuras em Salamanca.

    • sarahkcp 29 de setembro de 2010 às 6:53 pm #

      Cê não pede por esperar, tenho muitas fotos do Badá na Espanha pra compensar!

  4. Fernando Lyrio 28 de setembro de 2010 às 12:20 am #

    Oi Sarah,
    Legal ler suas aventuras e desventuras no estrangeiro. Gosto desse compartilhar de emoções e sensações quando a gente tá fora de casa, num outro mundo, outra língua, outro olhar. A gente às vezes olha as mesmas coisas, mas muda a forma de ver, e isso é que torna as coisas fascinantes. Minha curta temporada em Praga rendeu um textinho que partilhei também. Se quiser, dê uma olhada em
    http://janelaseportas.blogspot.com/search/label/praga
    Aproveite e me diga se algumas das coisas que vivi em 2000 ainda fazem sentido.
    Beijão procê e abração no Badá, F.Lyrio

    • sarahkcp 29 de setembro de 2010 às 7:03 pm #

      Oi Fernando! Sempre acho que pra lembrar tem que botar no papel. Meu projeto é fazer deste blog um livro de memórias geográficas.

      Partilho de algumas idéias que apresentou no seu texto sobre Praga. De fato, o centro histórico foi tomado para o turismo, quase não se vê tcheco por lá (a não ser que esteja em Praga para conhecer). Às vezes é insuportável andar fazer um passeio por lá de tão muvucado. Mas se você andar uns 200 metros pra fora, a história é diferente. Tem muito parque, muita praça, muito lugar pros locais andarem sem serem incomodados pelas hordas de turistas.

      Uma coisa que você acertou na mosca, e que eu até generalizo é a baixa qualidade dos restaurantes. Os tchecos ainda não aprenderam a comer bem. Infelizmente.

  5. Mama 28 de setembro de 2010 às 6:28 pm #

    woww… gorgeous photos!! como stela disse … the hills are alive with the sound of music…..uuuhhuuuuuuu. Merece ser pintada yes.

Comentários encerrados.

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